Perseguição a muçulmanos

O massacre do povo Rohyngia da Birmânia deixou um rastro de sangue e poucas notícias na imprensa

Por Sâmia Gabriela Teixeira (originalmente publicado na 3ª edição do Jornal IQRA)

Desde de maio, um massacre na Birmânia tem deixado um número expressivo de muçulmanos Rohingyas mortos e centenas de desaparecidos. Os números de baixas civis são bem controversos. Muitos falam em mais de 20 mil, outros em mil, mas a real preocupação parte de uma só vítima que o governo birmanês permita existir. Por isso, a ONG humanitária Human Rights Watch (HRW) vem afirmando que o governo tem sido omisso e cúmplice dessas mortes. Segundo a organização, o exército chega a influenciar a violência, citando que no dia 12 de junho, em Arakan, no maior bairro da cidade, foram queimadas mais de 10 mil casas de Rohingyas e de não muçulmanos também, enquanto a polícia e forças paramilitares abriam fogo, com munição letal, contra a população.
A HRW relatou também que assistiu a uma matança de muçulmanos em um vilarejo de Arakan. Segundo a ONG, um grupo invadiu um ônibus e assassinou 10 muçulmanos que estavam a bordo. A entidade humanitária ainda revelou que havia forças policiais próximas ao local, mas que nada fizeram para evitar o massacre. Em uma visita recente de um enviado da HRW, foram registradas situações de discriminação contra os muçulmanos e violações de direitos de cidadania básicos, liberdade de movimentação social e outros direitos fundamentais. A partir desse contexto, os Rohingyas juntaram-se aos grupos de muçulmanos da Palestina, Kashmir, Iraque e Afeganistão. Os muçulmanos perseguidos buscaram proteção em Bangladesh, porém muitos deles foram enviados de volta às zonas de conflito. Os que não foram devolvidos sofreram com a proibição do governo que impediu ajuda humanitária e distribuição de alimentos. Segundo informações oficiais de Bangladesh, o auxílio aos refugiados atrairia mais Rohingyas buscando asilo nas regiões costeiras do país. Segundo a agência da ONU para refugiados, há mais de 40 mil muçulmanos Rohingyas não registrados que vivem em campos em Bangladesh, e com a recente onda de violência o fluxo de refugiados deve aumentar, quer o governo goste ou não.
No início de agosto a Anistia Internacional disse que budistas Rakhine, com o apoio de forças de segurança do governo, haviam atacado com violência uma minoria muçulmana.

Muçulmanos buscam refúgio em Bangladesh (Fotos: Anurup Titu/AP)

Embora diversas organizações de direitos humanos tenham denunciado inúmeras situações de abuso por parte do governo e de grupos de etnias budistas, a líder pacifista Aung San Suu Kyi, ganhadora de um prêmio Nobel da Paz, não reconheceu o genocídio do estado contra os muçulmanos e considera que os conflitos étnicos no país devem ser investigados com cuidado e sabedoria. Alguns especialistas acreditam que a postura da pacifista segue uma linha política de preparação paras as eleições de 2015 na Birmânia. Tal situação revela uma posição controversa de muitos ativistas de discurso democrático, que por temerem perder apoio político, optam por não criticar o atual massacre contra os muçulmanos. Segundo Maung Zarni, observador da LSE Unidade da Sociedade Civil e de Pesquisa de Segurança Humana, “o racismo na Birmânia não existe apenas contra os Rohingya, mas também contra outras etnias ou qualquer estrangeiro”. Afirma ainda que o preconceito contra muçulmanos é generalizado. De acordo com Zarni, a Organização de Cooperação Islâmica (OCI) reuniu acusações o suficiente para acusar o governo birmanês por crimes contra a humanidade, e que o genocídio trata-se de uma limpeza étnica.

China ameaça deportar muçulmanos para região de conflito. Ação contraria o direito do refugiado garantido formalmente pela Convenção de Refugiados de 1951, a qual o país e signatário (Fotos: Anurup Titu/AP)

Discriminação histórica
A perseguição contra a minoria muçulmana no país de predominância budista tem origem histórica, que nos remete à década de 1940, quando a região conquistou sua independência e os muçulmanos da elite abandonaram o país, deixando o peso do racismo nas costas da população muçulmana mais pobre e, sobretudo, negra. Desde então, com a saída da colonização britânica, os muçulmanos passaram a ser tratados como cidadãos de segunda classe, proibidos de praticar a religião, reformar ou construir mesquitas, celebrar datas religiosas e até mesmo de viajar. O cientista político Kevin Barett relatou em artigo que “cada uma das mais de 500 mesquitas em Arakan tem sido dominada pelas forças de segurança do regime e todas destruídas, uma por uma”. Esse clima de perseguição, agravado pela forte pressão militar do governo no país, criou um atrito de raízes culturais entre etnias diferentes, e estendeu-se aos grupos de muçulmanos que buscaram refúgio no país. A partir de 1982, os Rohingyas foram proibidos de obter a cidadania birmanesa, sob uma lei que exclui o grupo étnico da lista de minorias oficialmente reconhecidas pelo estado. Outro agravante é o fato de o país não ser um estado contratante das convenções do Estatuto dos Apátridas de 1954 e da Redução de Apatridia de 1961, o que lhes confere o “direito” de não considerar os Rohingyas como cidadãos plenos na Birmânia, sem garantir assim proteção contra qualquer discriminação étnica em defesa da vida. O sheikh e diretor de assuntos religiosos da UNI, Mohamad al Bukai, acredita que, “independentemente de tais acordos e assinaturas em convenções, é parte fundamental de qualquer Estado que o respeito entre as diversas etnias seja praticado. Qualquer pessoa, de qualquer religião, deve se sentir segura na região em que vive, e em casos de temor e perseguição, é dever do governo que garanta a proteção e o asilo dessa população, mesmo que seu Estado seja formado por maioria de etnia diferente a dos perseguidos.

A partir de 1982, os Rohingyas foram proibidos de obter a cidadania birmanesa, sob uma lei que exclui o grupo étnico da lista de minorias oficialmente reconhecidas pelo estado (Fotos: Anurup Titu/AP)

Busca por asilo
Os muçulmanos da Birmânia têm encontrado hostilidade em diversos países. A HRW alertou sobre a difícil situação de pelo menos mil refugiados da etnia Kachin, em asilo na China, que estão sendo deportados de volta para o norte da Birmânia. Além disso, segundo a organização, o governo chinês pretende enviar mais 4 mil refugiados, que terão de enfrentar as zonas de conflitos na Birmânia sem proteção humanitária alguma por parte do regime majoritariamente budista.
Essa posição da China contraria o código da Convenção de Refugiados de 1951, a qual o país é signatário e define que o refugiado não pode sofrer um retorno forçado ao país de origem, onde a vida e a liberdade estejam em risco, seja por motivos de perseguição de “raça, credo, nacionalidade ou por opinião política ou social”.
Enquanto países, como a China, que deveriam se comprometer com os documentos da Convenção de Refugiados negam auxílio humanitário ou não se colocam à disposição para a acolhida necessária, o mundo tem se calado diante de tantas mortes reportadas apenas pelas organizações de direitos humanos.
Aqui no Brasil, poucas notícias, reproduzidas de veículos internacionais, foram publicadas a respeito desse massacre, e não deram prosseguimento aos acontecimentos. O sheikh Khaled Taky el Din, do Conselho Superior de Teólogos e Assuntos Islâmicos, declarou em nota oficial repúdio aos ataques contra os muçulmanos e pediu aos meios de comunicação pressão política sobre o governo birmanês. Segundo ele, “o genocídio organizado contra os muçulmanos é incompatível com as normas e convenções internacionais de direitos humanos”.

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novembro 8, 2012 at 3:01 pm Deixe um comentário

Ação do FSM Palestina Livre

Vamos mostrar nossa solidariedade!

Pelo fim da ocupação e colonização das terras árabes
Pelo direito de retorno aos refugiados
Pelo respeito aos Direitos Humanos
Pela soberania e autodeterminação dos povos
Pelo fim de qualquer tipo de discriminação racial
Pela derrubada do Muro do Apartheid
Nós chamamos as pessoas e os movimentos de todo o mundo
Para nos reunirmos, em Porto Alegre, Brasil, entre os dias 28 de novembro e 1º de dezembro, no primeiro FSM Palestina Livre

Juntos construiremos um movimento global por justiça, igualdade e soberania. E celebraremos a humanidade!
Somos Tod@s Palestin@s!

Divulgue o vídeo colaborativo sobre o FSM Palestina Livre:

novembro 6, 2012 at 7:26 pm Deixe um comentário

A presença do Orientalismo em comentário de Arnaldo Jabor

Como o discurso ocidental disseminado pela mídia distorce a realidade histórica do Oriente

Por Sâmia Gabriela Teixeira e Maura Silva

 Já dizia o escritor árabe Edward Said sobre os perigos do orientalismo na construção – ou melhor, desconstrução – da visão sobre a cultura oriental e a história dos árabes e muçulmanos. Não por acaso, o orientalismo surgiu com força na época de maior expansão da dominação da Europa e Ocidente no Oriente, quando no período de 1815 a 1914 o colonialismo direto europeu cresceu cerca de 35% para 85% em todo o mundo, de acordo com estudos de Harry Magdof, publicados em seu livro “Colonialism”, parte da 15ª edição da Enciclopédia Britânica de 1974.

Seguindo o padrão ocidental previsível, o comentarista Arnaldo Jabor, que atualmente tem sua coluna fixa na rádio CBN da Globo, no dia 2 de outubro descreveu o povo árabe como “parasita do Ocidente” e líderes religiosos como “canalhas” que se aproveitam da fé de um povo que “não tem nada a não ser Allah”.

Não é nenhuma surpresa que um canal da grande imprensa utilize tais elementos para falar sobre o Oriente, mas é necessário que outros meios busquem esclarecer as desinformações veiculadas na mídia para que o lugar comum não ganhe status de opinião de “especialista” e que desta maneira deturpe realidade e história de outra cultura.

Logo no início do discurso de Jabor, os primeiros comentários já revelam falta de conhecimento ao dizer, em tom negativo e presunçoso, que os árabes vivem hoje na Idade Média. Fica claro que o comentarista, além de analisar muito superficialmente a atual situação do mundo árabe, ignora o fato de que no período medieval a Europa – dita por ele como tão avançada e civilizada – era formada por diversas cidades cercadas por muralhas e governadas majoritariamente por senhores feudais que se orgulhavam de não saber ler. Neste mesmo período, sobretudo entre os séculos IX e X da era cristã, a civilização muçulmana compartilhava da mais desenvolvida sabedoria filosófica e científica na Espanha, Itália e Sicília, enquanto regiões da Europa, “vítima do parasitismo árabe” nas palavras de Jabor, apenas a partir do século XI firmava suas primeiras tendências científicas, quando bispos passaram a autorizar traduções para o latim de importantes livros de autores… árabes – pasmem!

 

Somente sob o domínio muçulmano, algumas regiões da Europa tiveram acesso a estudos matemáticos, de astronomia e física, de medicina e filosofia, por exemplo

Durante os séculos XII, XVIII e XIV, o trabalho dos tradutores não cessou, pondo em latim não a Rhazés, Albucassis, Avicena, Averróes, mas também autores gregos, como Galeno, Hipócrates, Arquimedes e Ptolomeu, que os muçulmanos haviam vertido em sua própria língua () O fato é que a Idade Média conheceu a antiguidade grega depois que esta passou à língua dos discípulos do Profeta () Sim, deve-se aos árabes o conhecimento da antiguidade; mas não aos curandeiros da Idade Média, que até o grego ignoravam; e por isso, devemos àqueles uma gratidão eterna por nos terem salvado tão precioso tesouro.Apagai os árabes da Históriadisse Librie o renascimento das letras tardará muitos séculos na Europa.

(KURAIEM Mussa, 1962)

 

Em relação à religião, dramatizada no comentário de Jabor e julgada de maneira irresponsável e limitada, o Islã mostrou-se uma das crenças mais tolerantes da história, e o comentarista ignora o fato de que se hoje há os fundamentalistas, boa parte – senão total parte – da responsabilidade pela existência de tais grupos é exatamente devida ao apoio político, interesse geopolítico e comercial, e também aos meios de comunicação e discursos propagandistas do Ocidente, que muitas das vezes desenha o fundamentalismo na luta legítima do povo contra a opressão e exploração das grandes potências.

Ainda que tudo isso seja discutido entre sérios profissionais historiadores e cientistas políticos, os estudos de Edward Said sobre o orientalismo ganham a confirmação de que o conhecimento domesticado no Ocidente produziu um discurso científico capaz de “legitimar uma autoridade sobre o Oriente”. Isso porque, afinal de contas, aparenta que tal opinião do comentarista em relação aos radicais árabes é utilizada apenas como gancho para outras ofensas que ele rasga na sequência, sobre, por exemplo, o fanatismo dos que queimaram bandeiras dos “Estados Unidos, Europa etc”. Ora, é por aí também que se explica a falta de fundamento ao afirmar que hoje os árabes são atrasados e “parasitas” do Ocidente. Fato é que hoje o Oriente Médio sofre consequências da influência direta da “civilização” ocidental.

Em 1820, um engenheiro francês chamado Louis Jumel investiu na produção de algodão, obtido no Egito. Segundo o professor e pesquisador Albert Hourani, “dessa época em diante, um volume cada vez maior da terra cultivável do Egito foi destinada à produção de algodão, quase todo para exportação para a Inglaterra. Nos quarenta anos após a iniciativa de Jumel, o valor das exportações de algodão egípcio aumentou de quase nada para 1,5 milhão de libras egípcias em 1861. (A libra egípcia equivalia mais ou menos à libra esterlina)”. E isso é apenas um exemplo…

Obviamente, diante de tal exploração de recursos naturais nos países árabes, essa região não mais conseguiu recuperar um equilíbrio próprio. Segundo o professor de Ciências Políticas Dejalma Cremonese, da Universidade Federal de Santa Maria – RS, os britânicos destruíram o sistema industrial instalado nas regiões da Índia controladas por eles, impondo, a partir do século XVIII, “duras leis tarifárias para impedir que os produtores industrializados indianos competissem com a produção têxtil dos ingleses”. Em seu estudo “Reflexões sobre a democracia e o terrorismo de estado na velha e nova ordem mundial”, Cremonese ressalta que tal modelo do “progresso” que a civilização ocidental buscou instalar no oriente – e o qual Jabor cita com orgulho – é responsável pela morte de “cerca de meio milhão de crianças a cada ano na África, em consequência do serviço da dívida externa, simplesmente em consequência dos juros que seus países precisam pagar”. E o comentarista ainda fala, esperançosamente, numa possível influência “do progresso do lado de cá”? Com tal fala, nos perguntamos: a nossa democracia ocidental atual possui alguma superioridade em relação aos modelos políticos orientais?

 

O progresso ocidental matou no Iraque mais de 114 mil civis no período de 2003 a 2011, de acordo com dados do projeto Iraq Body Count. Charge do cartunista e ativista Carlos Latuff

 

Por mais que discursos rasos a respeito do oriente sejam comuns, é sabido por muitos que a democracia é hoje uma ditadura velada. Basta se analisar os índices de encarceramento e homicídios nas ditas sociedades mais democráticas, e compará-los inclusive com as indesejáveis ditaduras de ontem e de hoje. Em outro trecho da tese de Cremonese, ele diz: “Em tudo o que concerne a essa questão (colonização no oriente médio), observam-se claramente os mais importantes princípios da ordem mundial: assuntos mundiais são controlados pela Regra de Força, enquanto se confia nos intelectuais para dissimular a realidade e servir aos interesses do poder”. E fica claro que o controle das “versões oficiais”, sobretudo as veiculadas pela mídia, está nas mãos dos grandes grupos econômicos, seja sobre assuntos mundiais ou aspectos locais, que possam ser preocupantes para a imagem da “justa democracia ocidental”. Contrariando a fala de Jabor, a verdade é que talvez seja mais fácil governar uma sociedade que vive sob uma “democracia”, pois esses “povos livres e democráticos” talvez sejam os reais obedientes do sistema, e um sistema perverso. O povo livre e democrático de hoje carrega no peito lemas como “bandido bom é bandido morto”, “rouba mas faz” e, quando busca manifestar opiniões de “protesto”, transformam ideologias e a subversão em festa, movimentada por jovens de uma classe média pouco ciente do poder que têm na vida política da sociedade, manipulada pelo “kitsch da Grande Marcha”.

Voltando ao oriente, é importante destacar que a democracia e o progresso ocidental matou no Iraque mais de 114 mil civis no período de 2003 a 2011, de acordo com dados do projeto Iraq Body Count, e 8,54% dessas mortes eram de crianças abaixo de 18 anos. Além desse exemplo, o que dizer do governo mais “democrático” do Oriente Médio, Israel, que desde o início de 2012 mantém em suas prisões mais de 250 detentos administrativos – sem julgamento ou acusação formal – e que, dentre esses, 8 são membros do Parlamento, além de ainda manter, sob acusação, outros 23 parlamentares encarcerados? Parece mesmo um modelo político livre e democrático? E será mesmo que os padrões ocidentais consideram publicamente justo manter 210 crianças, muitas abaixo dos 16 anos, encarceradas por serem acusadas de jogar pedras contra tanques? Não, nós não expressamos publicamente repúdio a tais violações, pois a “Regra de Força” fala mais alto no Ocidente, e isso, sinceramente deveria nos causar vergonha. Vergonha sublinhada ao que o jornalista se refere como atraso de milênios e que se traduz nas violações sofridas por anos de colonização do Oriente Médio pela Europa e EUA.

A história recente da Argélia é exemplo do que uma sociedade “avançada e democrática” é capaz de fazer com um país. Invadida pela França no século XIX com o pretexto de construir colônias agrícolas e militares, os franceses minaram a resistência nativa, destruindo a agricultura árabe com  uma violência que não poupou mulheres nem crianças. Segundo artigo de Rosangela Rosa Praxedes, Bacharel em Ciências Sociais pela USP, publicado na Revista Espaço Acadêmico, “o governo de Napoleão III foi marcado por uma forte militarização na Argélia e quebrou o sistema de propriedade tribal nativa, fixando árabes e berberes em minifúndios e aumentando a miséria dos agricultores.” Assim é fácil dirimir que anos de colonização imposta por estrangeiros em nome da superioridade maciça coberta por dogmas sociais, étnicos e culturais, reafirmada ano a ano através da violência, seja passiva de “atraso”.

O mesmo acontece com o Líbano, mesmo após a sua independência – conquistada em 1941, ainda tido como criação da potência colonial francesa. Fato é que a crescente escalada de violência espraiada pelo país, e que em nada contrasta com o seu passado recente de violências e abusos, é fruto de anos de opressão e tirania causada pela ocupação estrangeira. Talvez seja justo refletir acerca do modelo de colonização do Oriente Médio que durante toda a sua história teve a maior parte do seu território ocupado por potências que hoje julgam o seu retardamento, afinal, é bem provável que o “atraso de milênios” seja o reflexo de uma grande “indelicadeza histórica”.

Edward Said é um dos mais importantes intelectuais árabes da história. Seus estudos revelam o conhecimento domesticado do ocidente em relação ao oriente

Ouça o comentário de Jabor no link: http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/arnaldo-jabor/2012/10/02/COMO-OS-PESSIMISTAS-PREVIAM-OS-MAIS-RADICAIS-CHEGARAM-AO-PODER-NOS-PAISES-ARABES.htm

outubro 29, 2012 at 4:25 pm Deixe um comentário

Nova edição do jornal IQRA

De acordo com estudos do escritor e intelectual palestino Edward Said, o estigma que os árabes, sobretudo os muçulmanos carregam é resultado de anos de difusão do olhar do colonizador sobre o povo “inferior” a ser colonizado.

O jornal IQRA é uma publicação da UNI – União Nacional Islâmica, e foi idealizado em conjunto. Maura, minha amiga de caminhada e colega na faculdade, e eu mergulhamos neste mundo obscuro e complexo (para nós ocidentais) que é o Oriente Médio e nos dedicamos a produzir um livro-reportagem sobre refugiados palestinos. Desde então, descobrimos uma série de particularidades e uma riqueza cultural desse povo que faz parte de tantos outros povos igualmente importantes social e historicamente.  IQRA, portanto, nasceu com esta preocupação de não rotular as pessoas e o sistema sob o qual elas vivem dentro dos territórios, e fora também, do Oriente Médio, mas de divulgar, sem qualquer estigma, as questões sobre este tema.

O jornal é distribuído no país inteiro, com tiragem de 20 mil exemplares e também fica disponível em versão online, no site da União Nacional Islâmica.

Confira o conteúdo da nova edição clicando na capa logo abaixo:

outubro 26, 2012 at 4:13 pm Deixe um comentário

Favelas em chamas, despejos em massa e empreiteiras a toda

Cada vez mais lenha na máquina da especulação imobiliária

Por Sâmia Gabriela Teixeira

Na última segunda-feira (3) mais uma favela pegou fogo, destruindo cerca de 300 casas na comunidade Sônia Ribeiro – Favela do Piolho, no Campo Belo. Apesar de uma igreja próxima ao local abrigar parte dos moradores, muitos continuam pelas calçadas, tentando resgatar um ou outro pertence por debaixo dos escombros. Mais de mil pessoas ficaram desabrigadas, e somam a tantos outros números de incêndios que criam uma “indústria do fogo” lucrativa para as grandes empreiteiras do país.

Desde o início desse ano diversos grupos avessos às políticas higienistas no centro da cidade protestaram contra as ações truculentas dos policiais na região da Luz, foco de interesse nos planos de revitalização da prefeitura de São Paulo. Manifestantes em defesa dos direitos humanos e membros de organizações de luta por moradia protestaram contra a reintegração de posse violenta ocorrido no Pinheirinho e o descaso do poder público com os moradores da favela do Moinho, que ficou em chamas deixando cerca de 400 famílias desalojadas desde as vésperas do natal de 2011. Muitas, depois de quase 10 meses, ainda vivem embaixo do viaduto, próximo à linha de trem. “Temos cerca de 70 famílias ainda desalojadas, que vivem embaixo do viaduto, onde podem ficar. Dessas, cerca de 30 ainda não receberam auxílio aluguel”, contou Alessandra Moja, presidente da Associação dos Moradores do Moinho, em entrevista durante o Festival Moinho Vivo, evento realizado para arrecadar doações para as famílias sem teto.

Favela do Piolho em chamas. Mais de mil pessoas ficaram desabrigadas (Foto: Reprodução/Globo)

De acordo com a comunicação do Corpo de Bombeiros, no primeiro semestre de 2010 foram atendidas 67 ocorrências de incêndios em favelas. No ano passado, o número no primeiro semestre mais que quadruplicou e chegou a 359 ocorrências. Só nesse ano, já contabilizamos 32 incêndios. Em praticamente todos os casos os locais já faziam parte de programas de urbanização da prefeitura. Muitos desses terrenos foram esvaziados, após os despejos “inevitáveis” para a “segurança” dos moradores “irregulares”.

A chamada “indústria do fogo” forçou a criação, em 2008, de uma Câmara Técnica que agiliza procedimentos de prevenção e combate a incêndios em favelas. O próprio secretário das subprefeituras, Rodrigo Camargo, chegou a dizer publicamente que a evolução dos números de incêndios revela uma anomalia e, devido à falta de investigação de grande parte dos casos, o alto número de ocorrências de despejos, simultaneamente à grande quantidade de favelas tomadas por fogo, tem sido colocado em discussão entre ativistas e líderes comunitários.

“Maria Silvaneide foi para a ocupação numa segunda-feira à noite. Mãe de quatro filhos, cuida das crianças sozinha e oferece o peito à sua filha mais nova, Manoela, de apenas dois meses. Enquanto alimenta seu bebê e faz companhia para as crianças que jogam cartas e brincam próximas a ela, Maria vigia a rua preocupada com a invasão de policiais. “Essa começou a militar cedo” – se referia a sua pequena Manoela. “vai ser guerreira como a vó e a bisavó índia”, dizia, olhando para a filha.” (Foto: Sâmia Gabriela Teixeira)

Urbanização e políticas higienistas
Representantes de movimentos de moradia estranham a rapidez com que construtoras se dispõem, logo após uma ocorrência de incêndio, em terrenos com demanda judicial ou nos locais já definidos pelos programas de urbanização da prefeitura. “Cada vez mais querem menos favelas no centro. Mas, somente no centro, mais de mil imóveis, dentre eles galpões, prédios, estacionamentos, estão desocupados, sem nenhuma função social”, contrapõe Maria das Graça Xavier, coordenadora da União dos Movimentos de Moradia (UMM). Um dos exemplos desta agilidade foi o caso do incêndio que destruiu grande parte da favela do Real Parque, na região do Butantã. A velocidade das construtoras não foi diferente. O contrato do consórcio firmado entre a OAS Construtora e Constran S/A para urbanização da favela foi homologado no dia 17/09/2010, conforme publicação do Diário Oficial, e a data de assinatura do contrato, no valor global de 146.014.307,53, é de 28/09/2010, a apenas quatro dias depois do incêndio. Ainda mais atrás, o histórico de ameaças aos moradores inicia logo em 2007, com uma reintegração de posse autorizada por Kassab que enviou a Força Tática da Polícia Militar para desocupar a favela. O despejo não foi total por resistência dos moradores, e o caso foi denunciado pelo advogado Danilo Chammas, da Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos.

À época, o grupo Favela Atitude produziu um vídeo que denuncia a ação violenta da polícia e o despejo brutal dos moradores da Real Parque. Mas, a ação das autoridades, apesar de criticada por muitos, tem sustentação “legal”, com base em decretos e normas internas da prefeitura. O decreto 48.832, de 17 de outubro de 2007, considera “a preservação do patrimônio imobiliário municipal”, e determina novos procedimentos jurídicos, administrativos e de repressão, que autorizam “a retirada compulsória, mediante o uso da força, o isolamento da área, a interdição, a notificação para desocupação, a lavratura de boletim de ocorrência por crime de desobediência e esbulho possessório, e a solicitação de auxílio de outras Secretarias e órgãos cuja intervenção se justifique, inclusive da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar do Estado de São Paulo”.

Para complementar as ações repressivas, uma Ordem Interna de 8/7/2008, assinada por Kassab, determina “a prisão em flagrante, juntamente com a Guarda Civil Metropolitana, se constatar a prática de eventual crime ambiental, contra o patrimônio ou contra a Administração Pública, encaminhando o infrator à Delegacia de Polícia mais próxima para a adoção das demais medidas cabíveis, e, se entender necessária, a presença da Polícia Civil, Polícia Militar ou da Polícia Militar Ambiental”.

Crianças da favela do Moinho. Causas do incêndio ainda não foram esclarecidas (Foto: Sâmia Gabriela Teixeira)

E é destrinchando o que são os programas de obras emergenciais, como os de preservação do meio ambiente e de urbanização de favelas, que encontramos as principais insatisfações da população, expressas nos últimos atos públicos, que já não aceita mais práticas de despejo com o auxílio de forças policiais como política pública de habitação, de conservação dos patrimônios municipais ou do meio ambiente. Muito menos a possibilidade de que muitos despejos tenham sido acelerados por meio de incêndios, considerados por muitos como criminosos, nas áreas alvo da especulação imobiliária.

Na periferia, o descaso do poder público que segue via contrária aos próprios princípios formais dos programas da Secretaria de Habitação do Município de São Paulo, poluindo mananciais e represas, colocando a saúde da população em risco com os esgotos a céu aberto. No centro da cidade, a higienização da prefeitura nas ruas, como a recente “Operação Sufoco”, ainda ativa, e as reintegrações de posses de prédios ocupados por movimento de moradia.

O ano de 2012 foi, desde o início, movimentado por manifestações, e o tom é de revolta seja frente aos métodos de desocupação e violência policial, seja pelo fogo silencioso que se alastra rapidamente pelos barracos das favelas. Não esquecemos as tantas reintegrações de posse na região central de São Paulo, que desde 2011 ganha cada vez mais força. Estamos atentos aos diversos incêndios e mais pedidos de reintegrações, como o próximo programado para o dia 11 de setembro, do prédio ocupado na avenida São João.

Todo esse contexto revela um sufocamento por parte das classes dominantes em busca do lucro, da construção desenfreada de bonitos prédios e fortalezas, e da cidade “limpa”. De acordo com o arquiteto e urbanista Pedro Arantes, “o modelo de urbanização de favelas atual é uma modalidade que a direita experimenta utilizando mais tecnologias de despejos, com pulso firme, e que não é um processo que acontece de baixo para cima, como na gestão Erundina, mas sim por empreiteiras que fazem o elo entre construtoras e Estado, onde até mesmo a assistente social é terceirizada”. Com tantas análises e reprovações, resta saber quem são os principais beneficiados por esse processo administrativo da cidade, que ganha cada vez mais força desde o início de sua implementação com as gestões Serra-Kassab. Quem são?!

setembro 4, 2012 at 7:43 pm 14 comentários

O 11 de setembro e a islamofobia

Após 11 anos do atentado às Torres Gêmeas, o discurso anti-islâmico ainda é forte e influente na sociedade

* “O corredor vazio era sutilmente iluminado e aconchegante. O lustre de cristal, o tapete vermelho, a bancada estampada com a águia americana e a bandeira dos Estados Unidos da América hasteada ao lado esquerdo anunciavam um discurso aguardado por todos os americanos. Era uma manhã de segunda-feira, dia 2 de maio de 2011, e o anúncio da morte do líder do grupo Al-Qaeda, Osama Bin Laden, ganhava espaço na mídia de todo o mundo. Na TV, por volta das 0h30 de domingo, horário de Brasília, o presidente americano Barack Obama aparecia saindo de uma entrada lateral do corredor silencioso. Deu dezenove passos firmes rumo à bancada presidencial, subiu onze pontos na popularidade com o Tio Sam, e se preparou para o seu discurso patriótico à nação que ansiava pela vingança contra o maior inimigo da América. Do lado de fora da Casa Branca, centenas de pessoas comemoravam o evento. A cena de multidões celebrando o acontecimento se repetiu pela Times Square e no local das antigas Torres Gêmeas, o Ponto Zero. Enquanto isso, o presidente Obama apoiava as mãos sobre a bancada e cumprimentava a todos. Usava uma gravata vermelha e um broche da bandeira americana, que cintilava preso ao terno preto alinhado. Com a voz segura e tranquila, confirmava naquele momento que os Estados Unidos da América haviam derrotado, enfim, o responsável pela morte de centenas de homens, mulheres e crianças inocentes. Nas palavras do presidente, o atentado às Torres Gêmeas, que ‘escureceu um dia brilhante de setembro com o pior ataque ao povo americano já ocorrido na história’, ainda estava marcado na memória de toda uma nação, e que as piores cenas ainda eram as que não foram vistas pelo mundo, ‘da cadeira vazia na mesa de jantar, das crianças que foram obrigadas a crescer sem a mãe ou o pai, e dos pais que nunca sentiriam o abraço dos filhos’. Cerca de três mil pessoas morreram no atentado de 11 de setembro, e o ato foi vingado não somente com a suposta captura e morte de Osama Bin Laden, dez anos após o ataque, mas com outras providências tomadas na época, pelo então presidente George Walker Bush. (…) Foi então que, no dia 20 de março de 2003, tropas americanas invadiram o Iraque com mísseis de cruzeiro de longo alcance e bombas de precisão lançadas por Nighthawks F-117, aviões de combate batizados de ‘invisíveis’ pelas Forças Armadas. A inteligência americana do governo norte-americano afirmou que o ataque foi “cirurgicamente executado”. Na noite anterior ao ataque, Bush declarou que as forças militares estariam de volta tão logo cumprissem a missão. Mas, contra as três mil mortes do atentado às Torres Gêmeas, a guerra no Iraque derrubou o governo de Saddam e, até o dia 1º de setembro de 2012, de acordo com a organização Iraq Body Count, matou mais de 150 mil iraquianos, desses, 122 mil (80%) civis, desde a invasão e ocupação americana. Seis anos após o início da guerra no Iraque, numa conferência com a imprensa, o presidente Bush confessou que o país atacado não tinha relação alguma com os atentados às Torres Gêmeas: ‘O que o Iraque tem a ver com o 11 de setembro? Nada’, disse ao repórter. Mas alertou que Saddam poderia ser um risco à nação, se assim quisesse. Saddam não quis, e foi enforcado no dia 30 de dezembro de 2006, data em que os sunitas celebravam os mártires, conhecida como o feriado de Eid Al-adha.”

O 11 de setembro é considerado o trunfo para a perseguição de muçulmanos

O trecho acima foi extraído do livro “A noiva é bela, mas está casada com outro homem”, retrato das dificuldades de um grupo de refugiados palestinos do Iraque, que escaparam da morte depois da invasão americana no país e foram recebidos pelo governo brasileiro.

Desde o 11 de setembro, a islamofobia tem sido a arma política mais utilizada pelos Estados Unidos e seus aliados. Os presidenciáveis têm criticado o Islã e utilizado os muçulmanos como ferramenta de discurso bem de acordo com a fantasiosa guerra americana contra o terror. Herman Cain, um dos candidatos à presidência, chegou a comentar que jamais contrataria um muçulmano como funcionário. Outro candidato republicano, Newt Gingrich, comparou os muçulmanos aos nazistas.

A islamofobia está não só entranhada nos discurso políticos como também nos sistemas de segurança e inteligência. Uma investigação de um jornal dos Estados Unidos mostrou que a polícia de Nova Iorque, em parceria com a CIA, desde os ataques às Torres Gêmeas, infiltrava agentes nas comunidades islâmicas para acompanhar atividades e eventos culturais e religiosos. Segundo o Serviço Europeu de Polícia – Europol, em 2010, a maioria de incidentes terroristas na Europa foi realizada por grupos separatistas neonazistas (237 de 294), e apenas um ataque teria sido conduzido por islamistas, o que equivale a 0,34% de todas as ações terroristas executadas durante o ano. Segundo a ONG britânica Hope Not Hate, a rede internacional de grupos anti-islâmicos tem crescido e aumentado a influência e opinião mundial. Esse estudo revela que indivíduos de extrema direita têm firmado alianças pela Europa e Estados Unidos, “com mais de 190 grupos promotores do discurso islamofóbico”, que somado “a organizações e indivíduos o cenário é ampliado para 300”.

No início desse ano, um grupo chamado Stop Islamization of Nations (Pare a Islamização das Nações) foi criado e as figuras mais importantes desse movimento pretendem realizar um primeiro encontro em Nova Iorque, próximo da data histórica de 11 de setembro.

O sheikh e diretor de Assuntos Religiosos da UNI – União Nacional Islâmica, Mohamad al Bukai, explica que “após o 11 de setembro, os muçulmanos, sobretudo na Europa e Estados Unidos, sofreram perseguições e preconceito, mas que o Islã no Brasil também teve a imagem distorcida, com uma propaganda muito forte e negativa da religião”.

*trecho extraído do livro “A noiva é bela, mas está casada com outro homem”.

Quem Somos

A UNI – União Nacional Islâmica, sediada em São Paulo, no bairro do Brás, foi fundada por entidades islâmicas de todo o Brasil e vem atuando, há 8 anos, como única representante nacional dos muçulmanos no país. Seu trabalho é feito para as comunidades e também 17 afiliadas da entidade, com a realização de atividades sociais e acompanhamento de jovens revertidos, além de produção de conteúdo impresso e online e suporte à imprensa nacional.

A UNI está à disposição com fontes para entrevistas e esclarecimentos sobre o tema.

Informações para a Imprensa

União Nacional Islâmica | Assessoria de Imprensa

Fone: 55 (11) 3326-4040

Maura Silva: (11) 97169-0322 – maura_ed@hotmail.com

Ômar Abdel Monneim: (11) 99366-0376

Sâmia Gabriela Teixeira: (11) 96442.6676 – teixeira.samia@gmail.com

www.uniaoislamica.com.br

agosto 31, 2012 at 7:59 pm Deixe um comentário

Dirigente sindical espanhol relata mobilização de mineiros nas Astúrias

Jose Gonzalez Marin, da CSI (Corriente Sindical de Izquierdas) debateu sobre a importância da solidariedade internacional entre trabalhadores e movimentos sociais
Por Sâmia Gabriela Teixeira
O Sindicato dos Metroviários de São Paulo abriu seu espaço, na última segunda-feira (20), para receber o dirigente do Sindicato Independente CSI (Corriente Sindical de Izquierdas), Jose Gonzalez Marin, e seu relato sobre as grandes mobilizações de mineiros na Espanha. O evento, promovido pela CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular), além de abordar a luta da classe operária na Espanha, também proporcionou a reflexão e o debate sobre a crise global econômica e as novas estratégias de enfrentamento contra o sistema capitalista que, segundo Marin, “oprime e explora os trabalhadores”.

Mineiros bloqueiam acesso nas Astúrias (Foto: Efe)

Para Jose Gonzalez Marin, o Capital é o inimigo comum para todas as lutas (Foto: Sindicato dos Metroviários/SP)

Em seu discurso, o dirigente mineiro salientou a importância da luta de caráter internacionalista, reafirmando tal estratégia ao revelar surpresa por encontrar no Brasil semelhanças negativas com a Espanha e outros países da Europa. “Saí da Espanha sabendo de novas greves de outros setores, como o da saúde. Quando cheguei aqui, soube da greve de servidores federais e professores. Assim, creio que vivemos numa mesma situação, somos uma só vítima, sofrendo com o ataque do capital”, disse.
A luta unificada internacionalista, segundo ele, deve partir não somente de sindicatos e trabalhadores, mas de movimentos sociais também, sobretudo no que se diz respeito aos direitos humanos. “É importante expressarmos aqui nossa solidariedade e homenagem aos mineiros da África do Sul, e nos aproximarmos desse grave acontecimento. Desde que cheguei, tive a informação de que a polícia daqui é tão violenta, racista e discriminatória quanto a que executou os sulafricanos.  Matam gente simplesmente por ser negra”, comentou, acrescentando que apesar das violações dos direitos humanos serem evidentes, “os movimentos são constantemente criminalizados por tais estados fascistas capitalistas”.
Astúrias, a Marcha Negra e a mobilização global
O dirigente relembrou, para que fosse melhor compreendida a luta dos mineiros, a ditadura de Franco na Espanha, revelando o viés de enfrentamento que tem em sua formação política e atuação dentro da CSI. “Sabemos que o ditador Franco morreu de doença, e não foi justiçado pela classe trabalhadora como deveria ter sido, mas é importante resgatar a história desde o alavancamento da iniciativa privada na Espanha, que deixou na precariedade e miséria os trabalhadores do campo. Nas Astúrias, temos, historicamente, uma trajetória de luta, que mesmo sob um regime de ditadura, revela mobilizações de seu povo que lutaram por e mantiveram espaços de participação coletiva e ações de movimentos de mulheres e associações de bairro, por exemplo. Conto isso para entender que o que vemos hoje na internet, a Marcha Negra, os protestos, as greves e ocupações, não surgiu do dia para a noite. Nós, da Corriente Sindical de Izquierdas, somos um grupo de resistência, que age por enfrentamento utilizando todos os meios necessários, sem medo de mostrar a cara ou enfrentar a política”.
A Marcha Negra teve um trajeto de aproximadamente 400 quilômetros de caminhada, durou três semanas e reuniu um mar de gente em apoio a luta dos mineiros, tendo como ponto final a cidade de Madrid. Jose Gonzalez Marin, ao relembrar desse acontecimento, diz ficar arrepiado. Quase cem mil trabalhadores se uniram aos mineiros da marcha, e em coro gritavam: “Madrid, obrero, apoya a los mineros”. Segundo o dirigente, “a pressão sobre o governo é para evitar que o país não seja refém da crise e se transforme em uma nova Grécia, e para que o dinheiro destinado aos investimentos para formar trabalhadores não seja dividido no caminho entre governo e sindicatos”.
Representantes da categoria de metroviários questionaram o que pensa Marin sobre as privatizações, tão recorrentes aqui no Brasil, sobretudo, e atualmente, na área de transportes. Ele explicou que “a vitória contra esta política capitalista está mais próxima na medida em que os setores deixarem de expor suas reivindicações somente para a sua classe, e assim buscar também a construção da unidade internacional contra a política de direitas fascistas”. Além disso, relatou que um dos problemas, também existente aqui, que prejudica a articulação dos trabalhadores são os sindicatos ‘amarelos’, que aqui definimos como ‘pelegos’, que defendem, antes dos interesses da classe operária, a conciliação patronal, beneficiando apenas o que é rentável para o capital”.
Minero Soy
Abaixo, um vídeo da chegada dos mineiros a Madrid:

E uma canção de Victor Jara, do Chile para Astúrias, para o mundo. Que sirva como pano de fundo para imagens como essa, da Marcha Negra, que enchem o peito de esperança:

agosto 21, 2012 at 9:48 pm Deixe um comentário

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