A luta por soberania alimentar na Palestina

janeiro 17, 2013 at 6:41 pm 2 comentários

Ativista alerta para a restrição da comida como ferramenta de controle em territórios ocupados palestinos

Por Sâmia Gabriela Teixeira (publicado originalmente na 4ª edição do jornal IQRA)

Em fevereiro de 2002, por ordem do governo israelense, aviões fumigadores pulverizaram substâncias tóxicas sobre 1.200 hectares de cultivo agrícola na região de Negev, próximo a cidade de Beersheva. Esse crime ambiental se repetiu em outubro de 2002, abril de 2003 e abril de 2004. Os campos agrícolas eram cultivados há anos por árabes beduínos, mas Israel reivindicava aquelas terras, e o então ministro de Planejamento, Ehud Olmert, à época, chegou a declarar que os beduínos deveriam abandonar a região por bem ou à força, para que no local fossem construídas novas colônias judias, dando prosseguimento a constante ampliação dos assentamentos israelenses ilegais.

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Palestinos protestam contra a derrubada de árvores centenárias

Para falar sobre isso e outras tentativas de eliminar a cultura e o território palestino, um ativista vindo da Jordânia segue em turnê pela América Latina e chegou ao Brasil no mês de novembro, para dar palestras que revelam a política de limpeza étnica israelense.
Qais Al-Hinti é palestino, nasceu na Jordânia. Seus pais e avós são refugiados de Jaffa, por isso, podemos afirmar que Al-Hinti pertence ao território palestino, e que o território palestino pertence a Al-Hinti. Ele é, portanto, um palestino que nasceu refugiado.
O ativista que hoje mora em Amã, na Jordânia, dedica a vida a projetos em defesa de preservação da cultura, natureza e do folclore da Palestina histórica. Ele atua na Sociedade Al Hannouneh pela Cultura Popular, e realiza palestras para alertar sobre as violações dos direitos mais fundamentais aos palestinos e sobre os crescentes ataques israelenses ao ecosistema dos vilarejos e campos palestinos, por meio do trabalho com o Grupo Árabe para a Proteção da Natureza (APN em inglês) e de seu projeto pessoal intitulado “Palestine Sunbird”, que tem como referência e exemplo o Pássaro do Sol da Palestina, ave cujo nome já foi alvo do Estado de Israel para que fosse modificado para Pássaro do Sol de Israel.

As manifestações de protesto contra o desmatamento provocado pela ocupação israelense são comuns nos territórios palestinos ocupados

Soberania Alimentar
No Brasil, o ativista esteve presente durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, o primeiro a ser realizado com este tema e que contou com mais de 30 delegações de diversos países. Al-Hinti foi convidado para vir ao evento, no qual apresentou o seu trabalho, desenvolvido e tendo como estrutura importantes pilares para a resistência palestina, como a defesa da cultura, da agricultura e do ecossistema, e da “Soberania Alimentar”.
O último tema traz à tona um importante debate que vai além do termo já conhecido “Segurança Alimentar”, e que nos apresenta um quadro crítico na Palestina, sobretudo na Faixa de Gaza, diante de um controle israelense absoluto sobre o que pode ou não ser cultivado pelos palestinos e o que entra e sai da região. “Na Faixa de Gaza, por exemplo, só existe o mercado israelense. Os palestinos não podem comprar nada de fora. O que chega de fora vem clandestinamente por túneis que ligam a região ao Egito. Se não é por esses meios, o que chega é encaminhado por agências humanitárias, mas isso não ajuda a amenizar o que mais afeta a população e que prejudica diretamente a produção agrícola, o emprego local e, principalmente, o direito de escolher o que se deseja consumir”, explica Al-Hinti. Segundo ele, na Faixa de Gaza é permitido somente o cultivo de morango e flores, sem autorização para o plantio de verduras e legumes. “Israel garante suporte para o comércio de flores e morangos, e as pessoas acabam aceitando, por necessitarem de algum ganho financeiro. Mas as pessoas em Gaza precisam de comida, e não de morangos e flores. Então os agricultores não conseguem vender dentro de Gaza ou da Cisjordânia, e têm de exportar o produto. Mas Israel não facilita e tem o controle da exportação também. O que significa que eles perdem, com o tempo, o que foi cultivado, não geram renda e não têm nem mesmo o que comer. É um benefício zero”, explica o ativista.

Ghniem

Os processos de colonização na região de Ghniem

Outro problema é o que Israel chama de áreas restritas, ou ARA, em inglês. Segundo relatório da ONU de 2011, 35% das terras cultiváveis de Gaza e 85% da área marítima fazem parte das áreas restritas, sendo regiões totalmente ou parcialmente inacessíveis aos palestinos. “Além desse problema, 75% da terra cultivável em Gaza foi destruída durante o ataque israelense entre os anos de 2008 e 2009. As terras foram contaminadas por fósforo branco e outras armas internacionalmente ilegais, e na Cisjordânia, muitas das terras agrícolas foram confiscadas para a construção do muro do Apartheid, que cercam o que chamamos de ‘linha verde’, uma área vigiada por postos de controle. Resumindo, em Gaza não há terras cultiváveis nem Soberania Alimentar, e o que chega de fora vem por vias ilegais ou por meio de agências humanitárias. Na Cisjordânia, a entrada de produtos é controlada pelo sentimento do soldado israelense do check point. Normalmente, ele não está bem humorado e não autoriza”, complementa Al-Hinti.

Protesto na avenida Paulista contra os ataques aéreos em Gaza (Foto: Sâmia Gabriela Teixeira)

Clássica foto da palestina agarrada ao tronco de uma oliveira

Alimentação e revolução
No Brasil, a distância entre movimentos políticos e sociais de organizações e causas ambientais é muito comum. Para Al-Hinti, as duas vertentes de mobilização devem convergir, pois são intrínsecas. “Costumo citar a frase do ex-secretário de Estado da era Nixon, Henry Kissinger: ‘Quem controla o petróleo, controla as nações. Quem controla a comida, controla as pessoas’. Obviamente, uma família palestina que se preocupa durante o dia todo se terá ou não o que dar de comer às crianças, não consegue ser parte atuante no processo de resistência. O que temos de combater é exatamente essa estratégia. Não podemos deixar que a comida seja uma ferramenta para controlar as pessoas”, destaca.

Em 2008, autoridades israelenses realizaram testes para uma pesquisa que visava avaliar qual o limite de nutrição miníma que um palestino em Gaza precisaria para sua sobrevivência. A pesquisa gerou polêmica e organizações de Direitos Humanos, entre elas a Gisha, denunciaram a Coordenadoria de Atividades do Governo no Território, responsável pelo trabalho científico israelense. Segundo o cálculo dos estudos, um palestino de Gaza precisaria de 2.279 calorias diárias para não sofrer desnutrição. Os números serviram de média para definir o peso máximo de alimentos que poderiam entrar em Gaza.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Qais al-Hinti, acesse a página no Facebook: http://www.facebook.com/PalestineSunbird

PSB2

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IQRA Especial Palestina Livre Seria o início da Terceira Intifada Palestina?

2 Comentários Add your own

  • 1. Rafael  |  janeiro 18, 2013 às 5:03 am

    Olá! Gostaria de divulgar o projeto do jornal O EXISTENTE, o primeiro periódico impresso brasileiro totalmente voltado para a causa palestina. Estive divulgando uma edição de apresentação durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, mas eram poucas edições. A estréia da edição final nº 1 está projetada para Fevereiro, e será acrescida também de um encarte com nossa cobertura ao Fórum. Gostaria inclusive de convidá-los a inserirem um depoimento e contatos a respeito da sua participação nele. Meu email e contatos estão também no link que segue: http://www.clp2008.com.br/o-existente – nosso site também está no ar contendo conteúdos históricos do nosso Comitê pela Libertação da Palestina (CLP) muito embora tenha sido deixado de atualizar há alguns meses. Por favor, entrem em contato! Grande abraço. Luis Rafael

    Responder
    • 2. samiagabriela  |  janeiro 18, 2013 às 12:38 pm

      Oi, Rafael. Tenho muito interesse em manter contato contigo. Já lhe envio um email e lhe passo algumas informações sobre o que apresentei no FSM Palestina Livre e o que tenho como projeto pessoal mesmo a respeito da Palestina e periferia no Brasil.
      Obrigada pelo contato! Abraço e até breve!

      Responder

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