Como foi a comemoração da Independência de 88 anos atrás?

setembro 7, 2010 at 2:50 pm 4 comentários

Descubra mais sobre um monumento inaugurado durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil

Os Caminhos de uma poesia
Fragmento de monumento a Olavo Bilac fez parte de grandes transformações

Todos se mobilizavam a recolher donativos. Na lista de arrecadação os valores variavam de cinco a dez mil réis. Havia quem doasse números superiores a vinte mil.
No Largo da Sé as senhoras Rosário Cueto e Luiza Corranego, acompanhadas por escoteiros, tinham, como distintivos, medalhas de Olavo Bilac que reluziam e garantiam a credibilidade da arrecadação de donativos para a construção do monumento em homenagem ao patrono militar e príncipe dos poetas.
Dois dias antes da comemoração do Centenário da Independência crianças da colônia espanhola entregavam flores aos membros da Liga Nacionalista, responsáveis pela arrecadação de verba e encomenda do monumento esculpido pelo artista sueco William Zadig.
As pessoas esperavam ansiosamente as diversas comemorações e, com a chegada do grande dia, diversos locais de São Paulo preparavam alguma homenagem que mantivesse a chama nacionalista acesa para celebrar os 100 anos de Independência.
Às 11 horas da manhã do dia 7 de setembro, o quinto Batalhão de Caçadores tocava na praça localizada no final da avenida Paulista, anunciando a inauguração do monumento a Olavo Bilac.
As cinco esculturas remontavam os ideais do poeta nacionalista falecido no ano de 1918 e, em especial, uma cena retratava os temores de Bilac quanto ao destino de sua nação.


O fragmento do monumento, Pátria e Família, com seus cinco personagens em bronze, representa a cena do enterro de um soldado. O homem fardado segura a bandeira brasileira. A criança de olhar perdido tem a cabeça baixa em direção ao túmulo.
Enquanto viajava pela Europa, Olavo Bilac experimentou os terrores das guerras deste período, retornou para o Brasil e desde então buscou conscientizar os jovens de que devem defender seu país nestes casos extremos de conflito ou em decisões políticas.
Assim, a obrigatoriedade do alistamento militar era defendida em um momento em que a Belle Époque já havia perdido seu encantamento e as pessoas já desacreditavam na bondade humana.
Neste mesmo período, enquanto o amor à pátria era extremamente divulgado, paralisações com influências anarquistas abalavam a estrutura política do país. A grande greve de 1917 teve notável importância e traçou o início de ideais e protestos de operários.


O monumento de Bilac esteve na região da avenida Paulista até o ano de 1936. Por complicações com o trânsito, foi desmembrado e o fragmento Pátria e Família, símbolo maior do nacionalismo do poeta, ficou esquecido por mais de 50 anos no Viveiro Manequinho Lopes, na região do Ibirapuera.
Em 1988, com Jânio Quadros como prefeito, o presidente da Sociedade Amigos do Tatuapé, Antonio de Paiva Monteiro Filho idealizou a instalação de um monumento no marco inicial do bairro. Pátria e Família teria seu novo espaço conquistado.
Travis freqüentava a região, era um punk que em sua adolescência convivia com grupos anarquistas e defendiam sua ideologia confrontando com qualquer tipo de repressão e abuso de poder.
Certa noite do ano de 1988, Travis e seu grupo de amigos foram perseguidos por jovens, de ideais nacionalistas, contrários ao movimento anarquista: os carecas da zona leste.
A perseguição começou na estação de metrô do Tatuapé. O grupo de punks fugiu em direção ao Cemitério da Quarta Parada. Lá perceberam que faltava um amigo do grupo. “Ele deve ter escapado por outra saída”, pensou Travis. No dia seguinte soubera que um punk havia sido encontrado no cemitério por um coveiro. Seu amigo fora morto. As marcas de estiletadas nas costas de seu amigo não remetiam à beleza do sonho da anarquia. “Naquele momento, quando soube que ele havia morrido, senti uma vertigem tomar conta do meu corpo e um grande e desagradável frio na barriga. O punk que eu era estava adormecendo”, conta Travis.
Por volta das 10 horas da manhã do dia 23 de dezembro, o Hino Nacional era tocado pela Banda da Guarda Civil Metropolitana. O Inspetor Mincarelli regia a banda enquanto hasteavam a bandeira. Próximos ao monumento estavam o secretário Victor David, representante oficial de Jânio Quadros e o Presidente da Sociedade Amigos do Tatuapé, Antonio Paiva.
O monumento, impecável, brilhava seu bronze entre as esquinas das avenidas Salim Farah Maluf e Celso Garcia e não estaria no local se não fosse a fábrica de tecidos Santista incentivar a restauração, feita pela Belas Artes Rio.
“A decisão de escolher um restaurador do Rio de Janeiro foi de Jânio Quadros, mas a fábrica Santista foi quem arcou com todos os gastos”, afirma Antonio Paiva.


Enquanto o nacionalismo era festejado na inauguração do monumento Pátria e Família, no Tatuapé, Travis pensava que o anarquismo perdera a veia política. Grupos rivais conheciam seus discursos ideológicos, mas defendiam a prática da violência e intolerância.
Bilac deixava sua marca no bairro e Travis não seria mais do movimento punk. “Meus ideais de anarquia não valiam a minha vida”, afirma.
Adelina da Silva, com seus quarenta anos já morava no bairro do Tatuapé há quase uma década e se recorda da instalação do fragmento que homenageia o poeta Olavo Bilac. “Sempre respeitei muito o patrimônio histórico do país e nunca admiti vandalismo e desrespeito com nossas memórias e registros de outras épocas”, comenta Adelina.
Depois de onze anos situado no marco inicial do bairro, o fragmento Pátria e Família foi enviado para a praça Kennedy, na Mooca. “A transferência foi realizada pela necessidade de construir uma alça de acesso entre as duas avenidas”, comenta o vereador Antonio Paiva que continuou exigindo a permanência do monumento no bairro concretizando seu pedido com o auxilio de Luis Soares de Camargo, do Departamento Técnico do Patrimônio Histórico, e com o apoio da Administração Regional da Mooca.
No fim do ano de 1999 o monumento retorna ao Tatuapé e é fixado na praça José Moreno, entre as bibliotecas públicas Cassiano Ricardo e Christian Andersen.
A segurança da praça tem sido uma preocupação dos moradores da região e comerciantes.
Cláudia trabalha na biblioteca Cassiano Ricardo e recorda de quando começaram a concluir o pedestal do monumento a ser instalado. “Todos nós achávamos que seria construída uma base policial aqui. Antes fosse”, declara.
Travis com o tempo amadureceu seus valores de quando era jovem. Casou-se e ganhou uma família. O tempo também modificou o fragmento Pátria e Família.
Com um “A” de anarquia pichado na bandeira nacional, símbolo que possuía maior sentido no período da juventude do ex-punk Travis, hoje demonstra uma demarcação de território, ou talvez um simples ato de vandalismo e descaso com o patrimônio público.


Adelina da Silva, hoje com 62 anos, trabalha na mesma praça do monumento. Ela o acompanhou desde sua primeira inauguração e exerce função protetora da obra de arte. “Sempre que vejo estes adolescentes pichando ou jogando lixo no canteiro do monumento eu vou lá e mando saírem”, conta Adelina que tem sua barraca de doces e salgados no local há seis anos.
Emocionada, a antiga moradora do Tatuapé relata suas dificuldades, as mesmas que as cinco figuras em bronze sofrem. “Desde que estou aqui, minha barraca foi arrombada e roubada por três vezes. Tenho medo da falta de segurança no local”, afirma.
Adelina também contribui na limpeza da praça e compra, por conta própria, material de limpeza para a manutenção da calçada e canteiros.
Trabalhando das 9 horas da manhã até as 18 horas, a comerciante presencia tudo o que acontece na praça. “Sempre vem alguém dizendo que foi assaltado aqui na região. A iluminação daqui só foi colocada após abaixo-assinado dos moradores e comerciantes”, comenta Adelina que teve sua barraca fechada há cinco meses por determinação dos fiscais da subprefeitura da Mooca. Desde então ficou com contas e aluguel em atraso. “Quando comprei esta barraca me disseram que já existia o alvará de funcionamento, mas não era verdade e hoje estou lutando para conseguir esta licença”, relata.
Quanto ao atual estado do monumento Pátria e Família, o vereador Antonio Paiva relata: “O governo dá muita importância ao tombamento de obras de arte, mas a devida atenção quanto à manutenção e preservação destas obras não acontece como deveria.”
Antonio Paiva também é membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, Conspresp, e afirma que os problemas existentes na praça e na manutenção do monumento Pátria e Família são discutidos em reuniões do Conselho.
O descuido do monumento desvaloriza não só o tema, mas a figura histórica que inspirou a obra de arte e toda a trajetória dela através do tempo.
Hoje, Travis enxerga de forma diferente o serviço militar a polícia e o Estado, mas mantém seus valores de base anarquista fundamentados no cooperativismo. “Participo de uma cooperativa de crédito no trabalho. Todo mundo deposita uma parte do salário e cria-se um capital. Deste capital empresta-se aos cooperados o valor pedido com 1,6% de juros e o valor destes juros, após um ano, é repartido entre todos. É um ciclo de benefícios e traduz bem o ideal do anarquismo”, diz o ex-punk que transferiu o anarquismo para algo mais possível.
As pichações com o símbolo libertário no monumento não trazem o mesmo impacto de antigamente e, se dependesse da comerciante Adelina, já teria sido limpo e restaurado. “Eu mesma já pensei em promover um mutirão e limpar a escultura”, comenta.
Pátria e Família, retrato de uma triste cena da família que perde um ente querido em prol da nação, é protegido pelos olhos marejados de Adelina que se recorda frequentemente da mãe falecida há oito meses e se emociona ao contar as dificuldades que enfrenta, a luta diária para manter sua barraca e a preocupação em manter seu local de trabalho agradável aos seus clientes, cuidando bem do monumento que já foi tão valorizado e que um dia reluziu limpo o brilho de uma poesia.

Mais histórias e curiosidades sobre São Paulo?

Acesse: http://www.saopauloantiga.com.br

Anúncios

Entry filed under: Experiências.

Samaúma O que realmente importa nas eleições

4 Comentários Add your own

  • 1. Douglas Nascimento  |  setembro 7, 2010 às 3:29 pm

    Muito bom, reportagem bem produzida!

    Parabéns…

    Responder
  • 2. Mad  |  setembro 8, 2010 às 6:25 pm

    Pena que as pessoas só lembram que são brasileiras por 1 mês, a cada 4 anos, durante a Copa. Nessa época sim, surgem brasileiros de todos os cantos, o país fica verde e amarelo! Findado isso, todos se desfazem das bandeiras, das cores do país, e ele volta ser cinzento com a nossa conhecida poluição…

    Brasileiro, paulista e paulistano, sempre!

    Reportagem muito bem escrita mesmo, está de parabéns! Tem futuro…

    Responder
  • 3. ana  |  novembro 20, 2012 às 10:01 pm

    Parabéns pela delicadeza da reportagem e pela força das informações fornecidas. Estou realizando um trabalho de conclusão de curso sobre os monumentos de São Paulo, e um deles é justamente o Monumento a Olavo Bilac. Gostaria de citar sua reportagem no meu trabalho, como possibilidade de trabalho em educação patrimonial. Mais uma vez, parabéns!

    Responder
    • 4. samiagabriela  |  novembro 21, 2012 às 2:22 am

      Ana, muito obrigada pelos elogios e parabéns pela sua iniciativa com o TCC. Muito interessante! Depois divulgue o resultado por aqui tbm!
      Abraços!

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


No Twitter

No Facebook

Flickr Photos

Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 102 outros seguidores


%d blogueiros gostam disto: