Escola de rock. Rock baiano, alagoano, reinventado
agosto 31, 2011 at 1:23 am 2 comentários
Nos laboratórios da faculdade…
Após assistir ao documentário Filhos de João – O admirável mundo novo baiano, me recordei de uma matéria que escrevi na faculdade sobre a Virada Cultural de 2009. Naquele ano fui ao evento apenas para ver Os Novos Baianos, mas no dia anterior decidi ir ao show de um amigo, colega de classe de um curso de cinema. A banda se chama OXE, e me alegrei ao ver características de outros músicos incríveis como Secos e Molhados, Caetano Veloso, Gilberto Gil e também Os Novos Baianos em cada música apresentada. Mas o mais admirável, assim como o mundo novo baiano, foi a reinvenção de acordes e batuques que me fizeram sentir até mesmo um pouco de manguebeat num ritmo dançante. Recomendo a banda, sem medo, principalmente aos amantes do rock baiano.
Abaixo a matéria, feita em 2009, que conta um pouco mais sobre a banda:
Minha pele é de carnaval
Novas bandas, velhas e boas referências
Maio de 68. Jovens de diversos países protestam contra a censura, governos ditatoriais e sistemas educacionais. As mulheres exigem o direito à igualdade e uma nova geração busca pela liberdade sexual, retirando amarras de uma sociedade moralista e altiva. Década de 70. Vontade de expressão no auge. Outros valores estabelecidos por pessoas que defendem ideias novas e conflitantes com a sociedade conservadora. Woodstock. A música, com seu poder de formar opinião, foi capaz de não somente registrar tais períodos de modo político, social e cultural, como também criar novos estilos sonoros atribuindo influências de importantes personagens da música. Hoje, há quem questione o desinteresse histórico no campo artístico e cultural por parte da juventude. Mas, artistas de peso são sempre admirados. No terceiro dia de maio de 2009, a multidão colorida da Virada Cultural deu vida ao asfalto do centro da cidade de São Paulo. Um palco montado na avenida São João foi o ponto de atração de uma multidão repleta de jovens. Isso mesmo, o público considerado desinteressado. Por volta das 15h10, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor e Pepeu Gomes subiram ao palco e hipnotizaram o público juvenil, cantarolando saudosamente Anos 70. A quinta edição da Virada Cultural trouxe antigos sucessos musicais e revelou novos talentos, de conteúdo enraizado na cultura popular.
Os Novos Baianos, referência forte de miscigenação, fez o que os artistas do modernismo fizeram na Semana de Arte Moderna na década de 20, afirmando que o bom é ser misturado. O bom é ser mulato. Antonio de Mendonça é fã incondicional de Novos Baianos. Se recorda de detalhes da infância ligados a banda. “Não era raro ver a vizinha lavando roupa e cantando Preta Pretinha”, relata. Seu gosto musical não mudou com o tempo. “Com a idade fui aprimorando o ouvido, decodificando as mil influências sonoras, e as músicas dos Novos Baianos foi crescendo. A poesia das letras adquiriu um significado maior. E foi por isso que saí para vê-los e ouvi-los o mais perto possível, na Virada Cultural”, comenta. Se em época de ditadura os Novos Baianos expuseram todo seu poder cultural, naturalmente se estabeleceram no meio artístico e continuam sendo, até hoje, influência musical para novas criações. Cantores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luis Gonzaga, João Gilberto entre tantos outros presentes e consagrados, ainda nos dias de hoje, geram bons frutos.
Com um público de cerca de quatro milhões de pessoas, esta última edição da Virada Cultural contou com a participação de diversos espaços fechados, centros culturais, escolas e teatros. O SESI da avenida Paulista ficou bem movimentado na noite do dia 2. Pessoas de todas as idades aguardavam a distribuição dos ingressos e a abertura do teatro. Os seguranças se movimentavam com mais atenção. O relógio marcava 24h40 e a entrada para o teatro foi liberada. A cortina se abriu. O palco ficou iluminado e quatro rapazes com os rostos pintados de preto e branco surgem com um poder sonoro e presença de palco inegável. É a apresentação da banda alagoana OXE, cantando músicas do primeiro disco e do mais recente, Karranca.
Com influências brasileiras como Luis Gonzaga, Alceu Valença, Secos e Molhados e Novos Baianos, a banda tem características impossíveis de serem rotuladas. OXE é simplesmente OXE e a partir de suas raízes culturais nordestinas e suas boas misturas do rock com sons perfeitamente distorcidos à la Sistem of a Down, cria um som regional inserido no rock and roll pesado e bem equilibrado com a percussão.
Com horário previsto para 24h30, a apresentação do OXE teve um atraso de quase quinze minutos, mas não comprometeu o desempenho do show, nem mesmo as opiniões das pessoas.
Luis Grossi, estudante de Engenharia, foi ao show indicado por uma amiga. Diz que o atraso e espera pela aquisição do ingresso deixou de ser motivo de reclamação após ouvir a primeira música. “Cada minuto de espera valeu muito a pena. É uma banda de músicas boas e tem um perfil diferente do que estamos acostumados a ver. Gostei muito.”
Durante a apresentação dançante da banda era comum ver as pessoas sentadas com as pernas inquietas embaladas pelo ritmo.
Com dez anos de existência, o OXE é feito de uma família ainda mais antiga. Hugo Mocó, percussionista e irmão do vocalista Bruno OXE, diz que são envolvidos com música desde que se conhecem por gente. Filhos de pais com verdadeiros dotes artísticos sempre foram incentivados, até mesmo por costumes populares, a cultivarem a música. “Minha mãe promovia desfiles de moda com as mocinhas da região e meu irmão eu e mais uns amigos ensaiávamos com instrumentos emprestados”, relata Hugo.
Antes de criarem o OXE tocavam como banda de baile e foram carregando a bagagem e experiência artística até se estabelecerem como a banda que surpreendeu o público da Virada Cultural. Adriana Layatti, contadora, aproveitou a apresentação no SESI para conhecer os talentosos alagoanos e durante o show adotou sua canção preferida. “Adorei a música Verumar”, comenta.
A maquiagem característica que faz parte do show nos remete aos bailes de carnaval. Longe das comparações, que até mesmo os Secos e Molhados tiveram de enfrentar com relação ao Kiss, só podemos utilizar um fragmento dos Novos Baianos para definir a pintura em preto e branco: “Minha carne é de carnaval”.
A qualidade estética e sonora do OXE foi sendo lapidada conforme o tempo. Nestes dez anos passaram por diversas dificuldades que lhe fizeram correr atrás de reconhecimento com suas próprias pernas. Em 2002, descobriram que teriam duas faixas do primeiro disco Que Peste é Isso? no filme Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues.
O diretor do filme, também alagoano, conheceu o OXE através do Secretário da Cultura do Estado, que o presenteou com o disco da banda. Com a trilha sonora toda planejada, encaixou os rapazes neste trabalho que os colocou entre grandes nomes como Lenini e Djavan. A partir desta oportunidade voltaram para São Paulo e realizaram diversos shows.
Hoje, com uma equipe contando com nomes como Fernando Nunes, baixista de Zeca Baleiro e Brendan Duffey, produtor musical de bandas como Linkin Park, Maroon Five e Sepultura, o OXE trilha um caminho mais sólido e já tem espaço conquistado.
Embora sejam muito bem conhecidos em Alagoas, realizando apresentações para mais de cinco mil pessoas, na capital de São Paulo muitos que conhecem a banda nunca a viram tocar ao vivo.
A difícil acessibilidade a artistas de qualidade os força a buscar novos meios de expansão profissional. E se em Brasil Pandeiro, “O tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada”, o OXE já é bem reconhecido em terras estrangeiras. “Estivemos no South by Southwest, em Austin, Texas, um dos maiores festivais de música do mundo, e tivemos a oportunidade de mostrar nosso trabalho a diversas pessoas de forte influência no meio artístico”, comenta Hugo Mocó.
Brendan Duffey tem colocado a banda em evidência no cenário internacional e já tem planos para levar o OXE para outros cantos do mundo.
Por enquanto, aqui no Brasil, o OXE vai deixando de ser uma “lenda urbana”, para tornar-se uma banda de fácil acesso ao público.
Durante o show no SESI, Bruno OXE retrata os esforços, conquistas e planos desta talentosa família alagoana. “Conseguimos nos apresentar aqui no SESI, em plena Virada Cultural. Matamos dois coelhos numa tacada só”, diz a plateia e complementa: “Agora estamos a caminho da MTV!”. Quanto ao que sentiram no palco do SESI, Hugo Mocó define em uma única palavra: “Diversão”. Não é difícil imaginar que, entre palco e plateia, o sentimento foi recíproco.
Para quem ainda não viu o filme Filhos de João – O admirável mundo novo baiano, tenha um gostinho assistindo ao trailer.
E clique aqui se quiser sentir o que é um show do OXE. Hoje, 2 anos mais tarde, eles não pintam mais o rosto, o baixista Junior Bocão não faz mais parte da banda, mas continua sendo um músico e tanto e um baita compositor. E, pra constar, o OXE já toca na MTV
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1.
Cau | agosto 31, 2011 às 6:29 pm
Sam fazendo a diferença…que bacana!! Parabéns
Cau
2.
samiagabriela | agosto 31, 2011 às 6:36 pm
Cau, obrigada! E o seu blog é de arrepiar! Bjs.